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Lula demite Nísia após insatisfação com falta de resultados, e Padilha assumirá o Ministério da Saúde

Por O Globo    Terça-Feira, 25 de Fevereiro de 2025


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva demitiu a ministra da Saúde, Nísia Trindade, após demonstrar insatisfação com a falta de resultados da gestão na área. O lugar será ocupado por Alexandre Padilha, titular das Relações Institucionais e chefe da pasta durante o governo de Dilma Rousseff.

A decisão ocorreu após duas reuniões. À tarde, Lula recebeu Nísia para uma conversa a sós. Depois, foi a vez de Padilha.

Após a reunião com Lula, a ministra foi para o Ministério da Saúde e chamou o secretário-executivo, Swedenberger Barbosa, para seu gabinete, para dar a notícia.

Trindade ainda não informou sobre a demissão para demais secretários e funcionários, e marcou uma reunião com seu time principal para esta quarta-feira. A indefinição dos últimos dias levou equipes de diferentes setores da pasta a desmarcarem agendas já fechadas para as próximas semanas e meses.

Mais cedo, Lula participou de evento ao lado de Nísia para celebrar uma pactuação de vacinas e anunciou a inclusão do imunizante da dengue do Instituto Butantan no SUS.

A cerimônia aconteceu no Planalto e foi marcada pelo silêncio do presidente e uma ministra ovacionada pelo público.

A cúpula da Saúde não esconde a frustração sobre a falta de informações do Planalto, em crise que se arrastou por dias, e a incerteza sobre a continuidade no ministério. O time de Nísia descobriu sobre a decisão de Lula pela imprensa.

A tendência é que Padilha mantenha parte da equipe de Nísia, como Estela Haddad (Saúde Digital), Felipe Proenço (Atenção Primária) e Adriano Massuda (Atenção Especializada).

Nísia foi a primeira mulher a comandar o Ministério da Saúde e presidiu a Fiocruz durante a pandemia de Covid-19. O perfil técnico foi visto como um ativo pelo governo no início do mandato de Lula, após a série de críticas à pasta na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas a demora nas entregas e a dificuldade na articulação política desgastaram Nísia e, na visão do Planalto, inviabilizaram a permanência.

Lula vinha reclamando com aliados da demora da pasta em gerar ações que pudessem ser usadas pelo governo como exemplos de impacto positivo na população — o presidente chegou ao seu índice mais baixo de popularidade nos três mandatos, como mostrou o Datafolha.

A principal queixa era direcionada ao programa Mais Acesso a Especialistas, que tem como meta ampliar a oferta de consultas, exames e cirurgias na rede pública. Nísia foi cobrada por Lula em mais de uma ocasião diante do avanço a passos lentos da iniciativa. O programa alcançou 99% dos municípios do país atendidos só em fevereiro, dez meses após ter sido lançado.

Além disso, o Palácio do Planalto avalia que os benefícios da ação não foram transmitidos corretamente para a população. Até o momento, o ministério investiu R$ 2,4 bilhões, além de R$ 1,2 bilhão para as cirurgias eletivas.

A passagem de Nísia foi marcada ainda por outras crises, como a explosão de casos de dengue, falhas na estratégia de vacinação e falta de medicamentos no Sistema Único de Saúde (SUS), como insulina.

Em meio à escalada dos casos de dengue em 2024, Lula reclamou com auxiliares que a Saúde errou ao gerar expectativa na população de que o governo teria vacina contra a doença, sendo que não havia doses disponíveis no mercado à época. No ano passado, Nísia chegou a passar por um treinamento com o marqueteiro Sidônio Palmeira, hoje ministro da Comunicação Social.

Uma reportagem do GLOBO também mostrou, em novembro do ano passado, que o governo havia deixado vencer 58,7 milhões de imunizantes desde 2023. O número supera em 22% a quantidade desperdiçada nos quatro anos em que o ex-presidente Jair Bolsonaro esteve no poder, quando 48,2 milhões de imunizantes foram descartados por não serem usados no prazo de validade

A agora ex-ministra da Saúde também viu respingar na gestão a crise com a administração dos hospitais federais do Rio e o escândalo da contaminação de HIV por transplante na rede estadual do Rio de Janeiro.

Lula chegou a falar publicamente, em dezembro do ano passado, que era preciso tratar com "respeito" os hospitais federais do Rio e que, se o governo federal não conseguisse cuidar, era preciso procurar um jeito melhor de administrá-los.

— Já que é para ter hospital, que ele seja um hospital de excelência e um motivo de orgulho para qualquer brasileiro. Não era possível a gente continuar vendo hospitais desfalcados de funcionários e de funcionamento de sala de cirurgia. Se o governo federal não tem condições, que a gente procure um jeito melhor de administrar.

Quatro unidades estão passando por mudanças no modelo de gestão: os hospitais federais de Bonsucesso, Andaraí, Cardoso Fontes e Servidores do Estado — Andaraí e Cardoso Fontes passaram a ser administrados pela Prefeitura do Rio.

 

"Tem um aprendizado"

 

Enquanto lidava com os percalços da gestão, Nísia também virou alvo de parlamentares, especialmente do Centrão, pelo pouco trânsito político. Congressistas reclamavam que não eram recebidos com frequência e relatavam dificuldades para conseguirem recursos para as bases. A agora ex-ministra fez mudanças na equipe buscou abrir mais a agenda para deputados e senadores, incluindo viagens. O movimento arrefeceu as críticas, mas não conseguiu aliviar totalmente a pressão.

— Eu tenho registrado atas de todas as reuniões, tenho até a contabilidade de quantos parlamentares. Mas sempre tem os fatos, a percepção e a expectativa, que é imensa. É claro que tem um aprendizado. Passei a me reunir com mais frequência com lideranças de partidos, estreitamos muito, ao longo do ano passado, o trabalho com a Secretaria de Relações Institucionais. As críticas são do meu conhecimento, mas não creio que sejam gerais — disse em entrevista ao GLOBO em agosto do ano passado.

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